Levadas e veredas, um modo de conhecer a Madeira, para todo o viandante que aprecia o repouso e o contacto directo com a natureza, frequentemente quase intocada desde os primórdios do povoamento.

Este trilho inicia-se no Ribeiro Frio, concelho de Santana, e ao longo da cota dos 860 m de altitude acompanhamos a esplanada da Levada da Serra do Faial até à casa de divisão de águas, descendo até à zona dos Lamaceiros e finalizando no miradouro da Portela, no concelho de Machico.

A levada do furado, com início no Ribeiro Frio, é uma das mais antigas levadas pertencentes ao estado, tendo sido adquirida por contrato celebrado no ano de 1822 entre o primeiro Conde de Carvalhal e a Junta da Real Fazenda, e cujo destino era irrigar os campos agrícolas do Porto da Cruz. Devido à ligação com as levadas do Juncal e da Serra do Faial, que a ela se juntam logo no seu início e continuam para além do seu terminus no sítio dos Lamaceiros, diz-se que esta levada transporta três águas; aquela que sendo recolhida no vale do Ribeiro Frio rega os poios do Porto da Cruz; e as que vindo das serras de Santana são armazenadas na Lagoa do Santo da Serra para posterior distribuição.

Ao longo desta levada podemos contemplar os multivariados tons de verde, proporcionados pela bem conservada mancha de floresta natural da Ilha – Floresta Laurissilva - constituída predominantemente pelo Loureiro (Laurus azorica), Folhado (Clethra arborea), Til (Ocotea foetens), Vinhático (Persea indica), destacando-se ainda o Isoplexis (Isoplexis sceptrum), o Massaroco (Echium candicans), as Estreleiras (Argyranthemum pinnatifidum), e a Orquídea da Serra (Dactylorhiza foliosa).

É possível avistar o Bisbis (Regulus ignicapillus madeirensis), o mais pequeno pássaro que povoa a Madeira e o destemido tentilhão (Fringilla coelebs maderensis). Mais raro será o Pombo Trocaz (Columba trocaz trocaz) espécie endémica da Madeira.

A paisagem é dominada pelo vale do Ribeiro Frio, onde são surpreendentes os campos agrícolas do Faial, São Roque do Faial e Porto da Cruz; a espectacular massa rochosa da Penha de Águia, que protege a oriente a baía do Faial, enquanto a ocidente a Ponta dos Clérigos.

É no sítio dos Lamaceiros que se separam as águas, e é aqui que acaba a Levada do Furado e onde se inicia a descida para a Portela. Atravessando a zona florestal dos Lamaceiros e passando o Posto Florestal dos Lamaceiros, o percurso continua pela estrada de terra até se encontrar a Levada da Portela, que ladeia pela esquerda o Lombo das Faias, terminando ao encontrar a Estrada Regional ER102.

Este trilho tem início no Miradouro da Boca da Corrida e desenvolve-se entre os 1340 e os 940 metros de altitude, atravessando parte do Maciço Montanhoso Central, junto à base dos picos mais altos da Ilha da Madeira.

Antigo “Caminho Real” calcetado, era um das principais vias para a movimentação de pessoas na ilha. Utilizado por senhorios a cavalo enquanto as suas esposas iam deitadas em redes e transportadas por homens. Há referências de ter existido algures neste caminho uma mercearia, que provavelmente estabelecia um ponto de comércio, numa zona de passagem dos caminhantes que cruzavam a ilha.

Através da paisagem que lhe é dada a observar, descortinará na depressão o Curral das Freiras. Esta pequena vila no coração da ilha e rodeada de enormes montanhas tornou-se o refúgio, em 1566, das freiras do Convento de Santa Clara, aquando dos ataques dos piratas ao Funchal, levando consigo o tesouro do convento.

Os cursos de água que ao longo do trilho rasgam os montes, irão nutrir a vegetação composta pelas espécies de Laurissilva que aqui abundam, como o Loureiro (Laurus azorica), o Vinhático (Persea indica), Tis centenários (Ocotea foetens), Estreleiras (Argyranthemum pinnatifidum).

Pelo trilho poderá avistar algumas espécies da avifauna indígena como o Bis-Bis (Rugulus ignicapillus maderensis), o Tentilhão (Fringilla coelebs maderensis), a Manta (Buteo buteo harterti), Francelho (Falco tinnunculus canariensis), o Pombo trocaz (Columba trocaz) e a Lavandeira (Motacilla cinerea schmitzi).

À medida que contorna o Pico Grande, a povoação da Serra d´Água e Encumeada aparecer-lhe-ão à vista, bem como a passagem pelos tubos de água que derivam da Câmara de Carga que irá abastecer a Central Hidroeléctrica da Serra d´Água, far-lhe-á antever o final do percurso na Boca da Encumeada.

Este trilho tem a particularidade de ligar os dois picos mais altos da Ilha da Madeira, o Pico Ruivo (1861 m) e o Pico do Areeiro (1817 m), percorrendo para tal, parte da área do Maciço Montanhoso Central, área integrante da Rede Natura 2000.

Com início junto à Pousada do Pico do Areeiro, passados alguns metros deparamo-nos com o miradouro do Ninho da Manta. Desta plataforma onde supostamente esta ave de rapina nidificava, pode-se ver o vale da Fajã da Nogueira onde nidificam alguns Patagarros (Puffinus puffinnus puffinus), São Roque do Faial e grande parte da Cordilheira Montanhosa Central. Este é o único local conhecido no Mundo onde ocorre a nidificação da Freira da Madeira (Pterodroma madeira), espécie endémica da ilha e considerada a ave marinha mais ameaçada da Europa.

Para atingir o Pico Ruivo contornamos pelo Pico das Torres uma subida íngreme através de uma escadaria escavada na rocha e posteriormente uma descida; a parte mais difícil deste trilho é a subida final até à Casa de Abrigo do Pico Ruivo, mas o pensamento de atingir o ponto mais alto da ilha é um factor impulsionador.

Ao longo do percurso, encontram-se várias grutas escavadas nos tufos vulcânicos onde o gado se refugiava e que serviam de abrigo aos pastores, podemos ainda observar diversas aves, das quais se destacam as espécies restritas à Macaronésia, o Canário (Serinus canaria canaria), o Corre-caminhos (Anthus berthelotti madeirensis) e a Andorinha-da-serra (Apus unicolor), assim como outras subespécies restritas ao Arquipélago da Madeira, Pardal-da-terra (Petronia petronia madeirensis), Tentilhão (Fringilla coelebs madeirensis) e o Bisbis (Regulus ignicapillus madeirensis).

Para os que gostam de observar as plantas, esta área é conhecida por urzal de altitude e caracteriza-se pela presença de vários endemismos da Madeira, destacando-se a Violeta da Madeira (Viola paradoxa), Urze da Madeira (Erica maderensis), Orquídea das Rochas (Orchis scopolorum) e a Antilídea (Anthyllis lemanniana).

Perto da casa de abrigo do Pico Ruivo encontra-se a vereda PR 1. 2 com acesso até à Achada do Teixeira. Na Achada do Teixeira podemos visitar o “Homem em pé”, formação rochosa basáltica que se encontra descendo a encosta, depois de passar a casa de abrigo da Achada do Teixeira.